Amendoeira no Algarve: Floração de Inverno e Colheita de Verão

Há uns invernos atrás passei uns dias a fotografar a serra do Caldeirão, e desci até aos arredores de Loulé numa manhã fresca de janeiro. O que vi ficou-me agarrado à memória: hectares de amendoeiras em flor, brancas e rosadas, como se a paisagem tivesse sido coberta por uma neve impossível. Os algarvios contam a velha lenda da princesa nórdica que casou com um rei mouro e morria de saudade da neve do seu país — diz-se que o rei mandou plantar amendoeiras por todo o reino para que ela visse, todos os janeiros, o branco da sua terra. Aprendi nesse dia que a amendoeira (Prunus dulcis) não é só uma árvore frutícola: é um símbolo vivo do sul de Portugal. Deixa-me mostrar-te como acolher uma — ou um par — no teu jardim.

Porque é que a Amendoeira se Dá Tão Bem no Algarve

A amendoeira (Prunus dulcis) evoluiu nas montanhas do sudoeste asiático, em solos calcários, com verões secos e invernos amenos. É praticamente uma descrição do clima algarvio. Suporta bem temperaturas estivais acima dos 35 °C e tolera períodos prolongados sem rega, graças a um sistema radicular profundo que, em árvores adultas, pode descer 3 a 4 m à procura de humidade. Os invernos mediterrânicos do litoral sul oferecem-lhe as 200 a 400 horas de frio inverno que precisa para quebrar a dormência — pouco, comparado com macieiras ou cerejeiras, e por isso a amendoeira prospera onde estas falham.

A grande questão do Algarve são as geadas tardias de fevereiro. A amendoeira floresce muito cedo, entre meados de janeiro e o início de março consoante a variedade, e uma geada nessa altura destrói a colheita inteira. Por isso, no meu raciocínio para um jardim doméstico no sul de Portugal, dou prioridade a variedades de floração tardia, que escapam à janela mais perigosa. No interior algarvio, acima dos 300 m de altitude, esta escolha pesa ainda mais.

Ícone de zonas de rusticidade
Zonas de rusticidade
USDA 8a–10b (ideal no Algarve e Alentejo)
Ícone de altura
Altura e espaçamento
4–8 m de altura; 5×5 m a 6×6 m entre árvores
Ícone de necessidades de luz solar
Luz solar
Sol pleno, mínimo 8 horas diárias
Ícone de rega
Rega
60–80 L quinzenais entre junho e agosto (árvore adulta)
Ícone de nome científico
Nome científico
Prunus dulcis ‘Ferragnès’

Variedades Recomendadas para o Jardim Doméstico

Ramo de amendoeira (Prunus dulcis) com flores brancas e rosadas e uma abelha a pousar numa flor.

 

Aqui está o ponto que mais confunde quem planta amendoeiras pela primeira vez: a maioria das variedades é autoincompatível. Quer dizer que uma única árvore não produz, ou produz muito pouco — precisa de uma segunda árvore, de variedade diferente mas com floração simultânea, plantada a menos de 30 m. As abelhas (Apis mellifera) tratam do resto, e por isso ter colmeias ou flores melíferas perto da árvore faz uma diferença enorme na colheita.

Para o Algarve recomendo combinações testadas:

  • ‘Ferragnès’ + ‘Ferraduel’ — o par francês clássico, bem adaptado ao sul de Portugal há décadas. Floração de meados a fins de fevereiro, polinização cruzada perfeita entre os dois.
  • ‘Casanova’ + ‘Glorieta’ — variedades modernas espanholas, de floração tardia (início de março), excelentes para quem teme as geadas. Bom calibre de fruto.
  • ‘Bonita’ e ‘Vialfas’ — floração ainda mais tardia, indicadas para o interior algarvio ou zonas com risco de geadas em fevereiro.
  • ‘Lauranne’ — autofértil, francesa, a única que aceito recomendar para quem só tem espaço para uma árvore. A colheita é menor do que num par cruzado, mas existe.

No meu jardim plantei sempre em pares. Aprendi que uma amendoeira solitária é uma promessa quebrada — flores lindas em janeiro, e quase nada em agosto.

Plantação, Espaçamento e Solo

A amendoeira pede solo calcário ou neutro a alcalino, pH entre 7 e 8, muito bem drenado. Não tolera encharcamento — é a causa mais comum de morte súbita em jardins domésticos, sobretudo em solos argilosos do barrocal algarvio. Se tiveres dúvidas sobre a drenagem, abre um buraco de 60 cm, enche com água, e mede quanto tempo demora a esvaziar. Acima de 24 horas, esquece a amendoeira ou planta numa elevação de terra.

A plantação faz-se entre novembro e fevereiro, com a árvore em raiz nua ou em contentor, idealmente na lua minguante segundo o calendário lunar tradicional. Abre uma cova de 60 × 60 × 60 cm, mistura a terra com 5 a 10 kg de composto bem maturado, e planta com o colo da árvore ligeiramente acima do nível do solo. O espaçamento tradicional algarvio é 6 × 6 m, mas num jardim doméstico podes apertar para 5 × 5 m se podares para conter o porte. Lembra-te: precisas de pelo menos duas árvores, e os 30 m máximos entre elas garantem a polinização cruzada eficaz.

Jovem amendoeira (Prunus dulcis) recém-plantada com tutor de madeira e proteção de juta no tronco, em solo calcário.

 

Estaca a árvore jovem com um tutor a sul, para a proteger do vento dominante, e protege o tronco do sol escaldante com uma proteção de juta nos primeiros dois verões. Encontras tudo isto facilmente nos viveiros locais, na AKI ou no Leroy Merlin, e o investimento inicial por árvore ronda os 25,00 € a 45,00 € consoante o calibre.

Rega, Poda e Cuidados ao Longo do Ano

A grande virtude da amendoeira é a tolerância à seca, mas isso só se aplica a árvores adultas, com cinco ou mais anos. Nos primeiros três anos, rega profundamente uma vez por semana entre maio e setembro — 30 a 50 litros por planta, em rega gota-a-gota com dois ou três gotejadores de 4 L/h por árvore. A partir do quarto ano, podes reduzir a uma rega de 60 a 80 litros a cada quinze dias entre junho e agosto, e suspender completamente o resto do ano. Descobri que regar amendoeiras adultas em outubro é desperdício — a árvore já está a entrar em repouso, e a água excessiva favorece doenças radiculares.

A poda de formação dos primeiros três anos é em vaso aberto: escolhe três ou quatro pernadas principais, abertas em ângulo de 45° a partir do tronco, a 60-80 cm do solo. A poda faz-se em fevereiro, depois da floração, nunca em outono. A partir do quarto ano, a poda é de produção: retira ramos que se cruzem, ramos secos e os chamados “ladrões” verticais, e abre o centro da copa para entrar luz. Uma copa arejada reduz drasticamente o risco de monília (Monilinia laxa), o fungo que mumifica as amêndoas.

Quanto a pragas, vigia três frentes no Algarve: os pulgões verdes (Brachycaudus amygdalinus) em abril, que tratas com sabão potássico aplicado ao fim da tarde; a vespa-da-amêndoa (Eurytoma amygdali), que coloca ovos no fruto jovem e cuja gestão passa por recolher e destruir as amêndoas mumificadas no chão; e o cancro bacteriano (Pseudomonas syringae), que ataca feridas de poda mal seladas — por isso só podo em dias secos e desinfeto a tesoura com álcool entre árvores.

Floração de Inverno: o Espetáculo de Janeiro

Pomar de amendoeiras (Prunus dulcis) em flor branca e rosada nos arredores de Loulé, com muros de pedra calcária.

 

A floração das amendoeiras algarvias é, sem exagero, um dos espetáculos botânicos mais bonitos da Península Ibérica. Começa nos arredores de Loulé, Silves e São Brás de Alportel a partir de meados de janeiro com as variedades mais precoces, e prolonga-se até ao início de março com as tardias. Cada flor dura três a sete dias, mas a árvore inteira mantém-se em flor durante duas a três semanas, e o efeito é avassalador.

Na minha experiência, vale a pena planear o jardim para que a amendoeira fique visível da janela onde tomas o pequeno-almoço. Em janeiro, o resto do jardim mediterrânico está em pausa, e a amendoeira em flor torna-se o ponto focal absoluto. Plantar bolbos de açafrão-bravo (Crocus serotinus) ou narcisos-de-inverno (Narcissus bulbocodium) por baixo da copa cria um tapete que floresce ao mesmo tempo, e atrai as primeiras abelhas do ano — que, por sua vez, polinizam as flores e garantem a colheita.

Colheita, Descasque e Cura em Casa

A colheita acontece entre meados de agosto e meados de setembro, consoante a variedade e a altitude. O indicador é a deiscência: a casca exterior verde (o pericarpo) abre espontaneamente, deixando ver a amêndoa endocarpada (o “caroço”) lá dentro. Quando 70 a 80% das amêndoas da árvore já abriram, é hora de colher.

O método tradicional algarvio é estender uma lona ou rede grande debaixo da árvore, e sacudir as pernadas com uma vara almofadada, ou simplesmente com as mãos para uma árvore jovem. Recolhes tudo o que cair — caroço com casca verde, caroço sem casca, e até flores e folhas misturadas. Em casa, separa as amêndoas e tira a casca verde no próprio dia, porque se ficar agarrada e fermentar, mancha o caroço e dá mau sabor.

A cura é o passo que mais gente esquece. As amêndoas, ainda com a casca dura, espalham-se numa única camada num local seco, sombreado e arejado durante uma a duas semanas. No fim, podes guardar com casca em sacos de pano durante seis a oito meses, ou partir conforme precisares com um quebra-castanhas — uma árvore adulta de ‘Ferragnès’ produz facilmente 8 a 15 kg de amêndoa miolo por ano, mais do que suficiente para uma família e para oferecer aos vizinhos. Vamos juntos transformar jardins!

Amêndoas (Prunus dulcis) com casca verde aberta e caroços a secar numa lona debaixo da árvore em agosto.

 

Perguntas Frequentes

Posso plantar uma amendoeira sozinha se tiver pouco espaço no jardim?

R: Só se escolheres uma variedade autofértil como a ‘Lauranne’. Na minha experiência, a colheita de uma ‘Lauranne’ isolada anda nos 3 a 5 kg de amêndoa miolo por ano, contra os 10 a 15 kg de um par cruzado bem polinizado. Se houver amendoeiras de vizinhos a menos de 30 m, qualquer variedade serve, porque as abelhas tratam do trabalho.

Quanto tempo demora uma amendoeira a dar a primeira colheita?

R: Uma amendoeira enxertada começa a produzir aos 3 a 4 anos, com colheitas pequenas, e atinge produção plena entre os 6 e os 8 anos. Aprendi que a tentação de tirar todos os frutos no segundo e terceiro ano para deixar a árvore investir em estrutura compensa muito a longo prazo. A vida produtiva da árvore ultrapassa facilmente os 50 anos.

A amendoeira sobrevive no litoral do Algarve, perto do mar?

R: Sobrevive, mas tolera mal o vento salino direto. A menos de 1 km da costa atlântica precisa de uma sebe corta-vento de tamargueira (Tamarix gallica) ou pitósporo a barlavento. No barlavento e sotavento algarvio, mesmo a 500 m do mar, a amendoeira produz bem desde que esteja minimamente abrigada e o solo drene corretamente.

O que fazer se a árvore florir mas não ligar nenhum fruto?

R: Quase sempre é problema de polinização: ou não há segunda variedade compatível por perto, ou as abelhas não estavam ativas durante a floração por causa do frio ou da chuva. Descobri que pendurar uma garrafa com xarope de açúcar a 1:1 perto da árvore em janeiro atrai abelhas selvagens. A geada tardia em fevereiro também é causa frequente — verifica se as flores aparecem castanhas ou pretas no centro.

— Miguel Almeida

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